quarta-feira, 23 de maio de 2012

Rápida odisséia mínima



I – Naufrágio

Em que lugar e quando
- em meio a este oceano de profundas ilusões –
teria eu, pela primeira vez, naufragado meus sonhos
E sobrevivido?


II – O cais

Antes, muito antes dos primeiros temporais,
Antes dos dias frios, sombrios, invernais
Havia uma bandeira de esperança
Cravada à frente, à vista de todos, como um sorriso imaculado,
Criança
E inspiradoras rotas
Desafiadoras rotas
E dias em branco, como um mapa sem marcações,
Dias descomprometidos com o tempo
Descomprometidos com o futuro
- aquela parte do tempo sufocada em terno cinza e gravatas intermináveis de tons inimaginavelmente translúcidos, quase invisíveis –
Sem passado a se remoer em remorsos e dúvidas
- só muito mais tarde é que a brisa leve e fresca se transformaria no denso e nauseabundo ar carregado de mofo e culpas torpes-
Dias de brincar de roda
Dias de brincar de vida
Dias de brindar o presente com improvisos nas ruas e nos quintais
Com cheiro doce de manga, canela, maçã
Dias repletos de manhãs                                                                          
Quando a embarcação ainda estava contida entre laços e nós
Presa ao útero, ao seio, ao toque das mãos conhecidas
E tudo que se vislumbrava eram águas calmas e silenciosas...
- ai, que é uma benção não enxergar mais que o limite do horizonte! –
E os ponteiros famintos giravam letargicamente caçando segundos distraídos
Entre horas de sono leve e descuidado
E o medo era apenas do armário fechado
Do escuro sob a cama
Onde habitava algum fantasma muito tolo
Que se deliciava em não existir de verdade
E vigiar nossa fuga até o abraço mais próximo
- Dias em que os abraços estavam sempre próximos, à distância máxima de duas palavras, e fugir ainda era possível –
Naquele cais, diante daquele céu tão azul,
Tanta viagem à frente era apenas mais uma entre tantas brincadeiras,
Mas o barco não deixa rastros
E esse tempo é um tesouro escondido
Em alguma ilha de boas lembranças...

III – A partida

Quando foi?
Era Verão?
Que Primavera não se avisou chegando?
Quem rompeu as cordas?
É preciso navegar?
Inevitável!
Ainda que tão impreciso quanto viver
Navegar é viver é navegar
E tudo não é preciso...
E nada é preciso                                                                         
E tudo é precioso
E nada escapa
....

E quando se olha em volta
Se entende,
Percebe,
 Admite:
Muito espaço,
muita direção,
Muita solidão
O cordão se rompe
As mãos acolhedoras se despedem longe
Os abraços se distanciam
Os laços ...
ainda que não se percam completamente
Já não estão tão seguros...
O tempo  - que se perdia sem culpa –
Andeja cobrando pedágio
Ele, que ali mesmo era amigo, íntimo
Agora é algoz
Mas,
Porque o vento é bom,
Porque o barco é jovem,
Porque a viagem é instigante,
Ou
talvez
Porque queiramos penetrar o mistério
Com nosso falo de impetuosidade
E ali depositar nossa semente de esperança
Acolhemos                                                                               
– as pernas um pouco trêmulas,
o coração um pouco apertado,
as mãos um pouco suadas -
Essa inevitável viagem...
E partimos
Pensando-nos inteiros
Ainda que já certamente um tanto partidos

IV – Tormenta

A nuvem devora nuvens e segue o barco
E se adensa, e se escurece
E se enfurece
E se lança sobre o barco
Sobre o mundo
E açoita, e assusta, e desafia suas amarras
E balança e arrasta a embarcação
E as vagas altíssimas
Assustadoramente fortes
Brincam com a vida
Como um nada entre os dedos
Como se a vida nada valesse mesmo
Como se a vida estivesse à mercê de todas as forças
Como se todas essas forças derivassem a vida à revelia dos desejos
Das vontades
Dos projetos
Dos sonhos
Dos planos
Dos dias que contamos para as férias
Do ouro que contamos nosso nos cofres dos inimigos
Das vantagens que contamos tão à toa                                       
Das nossas preces
Da nossa fé
À revelia de nossa auto-comiseração
De nosso profundo pedido de piedade em meio ao incontrolável medo
Como se a direção jamais tivesse em nossas mãos
Como se fosse em vão nossa própria força
Uma força maior que a nossa força
E o barco já não nos pertence
 - pertencera algum dia? –
E o rumo da embarcação é qualquer
E até a própria embarcação
-nossa pele, nossos ossos, nossos olhos e pensamentos, nada nosso –
Nos é estranha...
A noite interminável nos arremete contra os rochedos,
Nos tira o bem mais precioso,
Esmaga nossa alma
Dilacera nossas entranhas
Espanca o feto da esperança em nosso coração
Queima com um beijo traidor a semente das nossas ilusões...
E o dia demora chegar
E demora, e demora....
...
...
E demora às vezes demais...

V – Destroços

Sobrevivente!
Assim que abrimos os olhos
-Quando abrimos!-
Nos dói a luz de alguma manhã impossível                                
Nada é familiar
Uma ilha deserta
Destroços pela areia
Uma cadeira quebrada
Um mastro partido
Certezas destroçadas
Conceitos destruídos
Bandeiras rasgadas
- ah!..quantas bandeiras empunhamos em nossas guerras santas –
Elos rompidos
 - com a fé, com as coisas mais simples e mais complexas, com o tempo –
Pedaços de tanta coisa...
Cacos de vidro de nossa imaculada moldura onde guardamos rancores
Nesgas de seda, onde tivemos delicadamente envolvidos nossos amores
Achas de lenha onde queimamos muito ódio inútil
Farpas de madeira de nosso baú de mesquinharias
Bóiam nas águas nossas máscaras
- estranhamente misturadas a alguns cartões de créditos, talões de cheques,
e um par de sandálias nunca usado –
E reconhecemos algumas fantasias transfiguradas
- o dia de se começar a ser feliz,
- o dia de nos perdoarmos para sempre,
- a vida eterna –
E um diário de nossas promessas nunca cumpridas...
....
E como não há muito o que se fazer
Nos levantamos milagrosamente
E decidimos reconhecer o novo mundo
Desbravar o novo espaço
Olhar para o que restou de um ser ressuscitado
Sem bagagem                                                                         
Sem qualquer conceito
Sem qualquer esperança
E, muito estranhamente, sem medo da morte.


VI – O mapa (ressurreição)

?Por que razão,
Em meio ao oceano de profundas ilusões
Teria eu sobrevivido para contar
Dos sonhos primeiros que um dia eu tive
E dos sonhos primeiros que tivemos todos
E de como foram destroçados pela noite interminável e escura
E de como fui atirado aos rochedos
E de como vi tantos destroços à minha volta
E de como reconheci outros náufragos invisíveis
E de como muitos não me viram
E de como muitos ainda não me vêem
- E eu grito (talvez invisível como eles)! Estou aqui! Estou aqui! –
E de como a embarcação se refaz – quem a refaz? Como? -
E parte de novo e de novo e de novo e sempre
E de como sobrevivemos a tantas partidas
Há tanto tempo...?
?Por que razão
Seguimos adiante
Recriando bagagem – que vão se destroçar mais à frente –
Sonhando novos sonhos
Remendando planos
Reconsertando nosso baú de mesquinharias
Recosturando nossas máscaras
Refazendo nossas fantasias                                                     
E recomeçando nosso diário de promessas que não serão cumpridas?
Ah...frágil embarcação...
Tateamos um mapa...
Recolhemos a informação das estrelas – tão instáveis, inconstantes, tão mortais!
Frágeis como as inabaláveis ilusões que seguimos cegos
Deslumbramos um norte qualquer
Nos guiamos através de um pôr de sol, quase uma miragem
Uma meia dúzia de bússolas de verdades apreendidas aqui e acolá
E,
Em muitos casos
- que ironia!-
Nos envaidecemos da coragem de piratas
Desfilamos orgulhosamente nossas pernas extirpadas
Nossos olhos arrancados pelas armadilhas da viagem
Pelos inimigos famintos de nossas posses
Ou por nós mesmos, num momento de desespero
Quando julgávamos definitivamente  jamais ver a Deus
...
Mas, Alguns,
Que por graça ou merecimento
Por sorte ou destino
Em meio a tantas tempestades
Compreendem a viagem e seu vazio
Apenas navegam livres
Meninos
Como eram
Antes dos dias invernais
Antes dos primeiros temporais...

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